Agro sob pressão: custos, cortes e burocracia ampliam crise no campo
Produtores enfrentam queda de renda, alta de insumos e falta de apoio enquanto decisões governamentais e entraves estruturais agravam cenário
O agronegócio brasileiro atravessa um momento de forte pressão, marcado por aumento de custos, incertezas econômicas e redução de políticas de apoio. A avaliação é do diretor-secretário do Sindicato Rural de Cascavel, Paulo Vallini, que aponta um cenário de desgaste crescente para o produtor rural.
Segundo ele, a combinação de fatores internos e externos tem impactado diretamente a rentabilidade no campo. “O produtor vem sendo testado de todas as formas. A margem é cada vez menor e, hoje, quem não for eficiente vai ficar no prejuízo”, afirmou.
Entre os principais desafios está o aumento no custo dos insumos, especialmente fertilizantes, grande parte importada de países como Rússia e Canadá. Com o agravamento de conflitos internacionais, como no Oriente Médio, o setor enfrenta instabilidade na oferta e aumento de preços. “A gente não sabe nem qual vai ser o preço do fertilizante nem a disponibilidade. É uma série de fatores que deixa o produtor coçando a cabeça”, disse.
O impacto também é sentido no transporte. A alta do diesel encarece toda a logística de produção e escoamento. “Quando sobe o diesel, sobe tudo. E isso recai diretamente sobre o produtor”, pontuou.
Além dos custos, o setor enfrenta um cenário de retração nas políticas públicas. O corte de mais de R$ 1,6 bilhão em programas que incluem o seguro rural preocupa lideranças do campo. “A gente está vendo que o governo está cortando de todos os lados e o agro está sendo impactado por isso. E a gente não sabe as consequências que vamos ter”, alertou Vallini.
Para ele, a situação se agrava após anos consecutivos de preços baixos das commodities, como a soja. “Faz uns quatro anos que os preços estão muito ruins. Aquela ‘gordurinha’ que o produtor tinha já acabou. Ele vem mantendo a atividade, mas sem margem”, explicou.
O dirigente também criticou a forma como o setor tem sido tratado no debate público. “O agro produz para todo mundo, independente se é direita, esquerda ou qualquer posição. Não existe nada mais democrático do que isso”, afirmou.
No campo estrutural, entraves burocráticos também dificultam a atividade. A exigência de regularização para uso da faixa de domínio em rodovias é um exemplo. “Se o produtor não fizer isso, pode perder a área para plantio, porque a concessionária vai cercar”, explicou.
Outro ponto de atenção é a ratificação de áreas em regiões de fronteira, que exige processos como georreferenciamento. “Se deixar para a última hora, não consegue fazer. É um processo demorado e pode trazer prejuízo para o produtor”, alertou.
A infraestrutura precária, especialmente no fornecimento de energia elétrica, segue como um problema recorrente. “Os problemas de falta e oscilação de energia são antigos. O que o produtor quer é solução, porque os prejuízos já aconteceram”, disse, citando perdas em atividades como avicultura e piscicultura.
Na cadeia do leite, a situação também é crítica. A concorrência com o leite em pó importado e reidratado pressiona o mercado interno. “O produtor está pagando mais pelos insumos e recebendo menos. E lá na ponta, o consumidor paga caro. Essa conta não fecha”, avaliou.
Ele também chamou atenção para a necessidade de maior fiscalização, especialmente nas regiões de fronteira. “Esse tipo de produto entra irregularmente e acaba prejudicando toda a produção nacional”, afirmou.
Apesar das dificuldades, Vallini reforça a importância estratégica do setor. “O agro não parou nem na pandemia. Continuou produzindo e abastecendo o Brasil e mais de 160 países”, destacou.
Diante do cenário, o dirigente projeta um ano desafiador, agravado pelo contexto político. “Vai ser um ano difícil, com muitas promessas. O importante é que as decisões sejam tomadas olhando para a realidade, senão os problemas vão aumentar ainda mais”, concluiu.
Foto: Eliane Alexandrino
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