Guerra no Irã já gera preocupação no agro e pressiona exportações de carne bovina
Conflito eleva custos logísticos, ameaça rotas comerciais e preocupa produtores no Paraná
A escalada do conflito envolvendo o Irã já gera preocupação no agronegócio brasileiro e acende um sinal de alerta para as exportações de carne bovina. O cenário de instabilidade no Oriente Médio amplia os riscos logísticos e comerciais, especialmente em uma região estratégica para os embarques do Brasil.
De acordo com a Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados, os primeiros impactos já são sentidos em cadeias como frango, milho e açúcar. O setor de aves é o mais afetado, já que cerca de 25% das exportações têm como destino países do Oriente Médio, enfrentando dificuldades com rotas marítimas alteradas e aumento nos custos operacionais.
No caso da carne bovina, embora o impacto direto ainda seja limitado, o mercado acompanha com atenção os desdobramentos do conflito. A região responde por cerca de 10% das exportações brasileiras do produto, com volume aproximado de 250 mil toneladas em 2025. O Irã está entre os destinos relevantes, o que aumenta a apreensão do setor.
O principal risco, segundo especialistas, está na logística internacional. Rotas marítimas pressionadas, aumento no custo de frete, encarecimento dos seguros e incertezas quanto à capacidade de pagamento de compradores da região entram no radar das empresas exportadoras. Esse cenário reduz a previsibilidade dos negócios e pode afetar contratos e entregas.
Milho e açúcar, por outro lado, possuem maior flexibilidade para redirecionamento a outros mercados, o que tende a minimizar perdas no curto prazo. Ainda assim, o aumento generalizado dos custos impacta toda a cadeia produtiva.
Outro ponto crítico é o fornecimento de fertilizantes. O Oriente Médio é um dos principais fornecedores de insumos utilizados na produção agrícola brasileira. Com o agravamento do conflito, há risco de elevação nos preços, o que pode pressionar ainda mais os custos no campo.
No Paraná, produtores já sentem reflexos indiretos da crise internacional. O aumento do diesel, que subiu mais de R$ 2 por litro nas últimas semanas, representa impacto de cerca de 30% no custo do combustível, afetando diretamente a produção e a logística.
Segundo o presidente do Sindicato Rural de Cascavel, Paulo Orso, o cenário é de agravamento das condições para o produtor. Ele afirma que os custos elevados, somados às incertezas logísticas e à dificuldade de acesso a seguros, aumentam o risco da atividade e reduzem a margem de lucro. “Hoje, muitos produtores já operam no limite ou no prejuízo. Esse aumento de custos e a instabilidade no mercado podem desestruturar a cadeia produtiva”, avalia.
A possível redução das exportações também preocupa. Caso parte da produção destinada ao exterior seja redirecionada ao mercado interno, pode haver aumento da oferta e pressão sobre os preços, agravando ainda mais a situação dos produtores.
Já o presidente da Sociedade Rural do Oeste do Paraná (SRO), Devair Bertolato, avalia que, por enquanto, o preço do boi não sofreu impacto direto. Segundo ele, o mercado segue estável no curto prazo, mas há preocupação com o aumento dos custos. “Ainda não houve reflexo no preço do boi, mas o que preocupa é o custo de produção, principalmente com petróleo e fertilizantes. Isso, sim, deve chegar ao produtor”, afirma.
Bertolato destaca que o mercado internacional ainda apresenta incertezas e que os efeitos da guerra tendem a ser sentidos de forma gradual. “Nada acontece de um dia para o outro. O mercado ainda está reagindo, mas existe preocupação com possíveis impactos nas exportações e nos custos logísticos”, completa.
Diante desse cenário, o setor agropecuário brasileiro acompanha a evolução do conflito com cautela. A expectativa é que, caso a instabilidade persista, os impactos se tornem mais intensos nos próximos meses, afetando não apenas as exportações, mas toda a cadeia produtiva, com reflexos na geração de renda, emprego e no preço final dos alimentos.
Foto: Divulgação
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