Engrenagem bancária trava e fortuna de R$ 15 bilhões de Nelson Tanure entra em colapso
Império construído com alavancagem agressiva e grandes apostas em empresas como Light e Prio perde sustentação após liquidação do Banco Master
A trajetória do investidor baiano Nelson Tanure sempre esteve associada a risco elevado e retornos expressivos. Conhecido por assumir o controle de empresas em dificuldade financeira, renegociar dívidas e reposicioná-las no mercado, ele construiu, ao longo de décadas, um patrimônio estimado em cerca de R$ 15 bilhões. O modelo, porém, mostrou fragilidades quando a engrenagem de crédito que sustentava parte do império deixou de funcionar.
O ponto de inflexão ocorreu após a liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. A medida congelou ativos e interrompeu fluxos financeiros relevantes para empresas ligadas ao grupo. A partir daí, uma sequência de execuções de garantias alterou o controle de ativos estratégicos e reduziu drasticamente a participação do empresário em negócios que haviam impulsionado sua reputação.
Do turnaround à consolidação
Nascido em 1951, Tanure ganhou notoriedade ao investir em companhias endividadas, assumindo controle e promovendo reestruturações agressivas. Atuou em setores como indústria, construção naval, portos e telecomunicações. Em 2008, comprou a operadora Intelig por R$ 10 milhões, assumindo passivos relevantes, e a vendeu cerca de um ano depois à TIM por aproximadamente R$ 650 milhões em ações, após disputas judiciais.
O caso mais emblemático, no entanto, foi o da antiga HRT, rebatizada como Prio. Após o fracasso de projetos exploratórios, a empresa viu seu valor de mercado despencar. Tanure iniciou a compra de participação quando a companhia valia menos que o próprio caixa. Sob nova estratégia, focada na aquisição de campos maduros e eficiência operacional, a produção saltou de 5 mil para cerca de 90 mil barris por dia. As ações se valorizaram mais de 3.000% e a companhia registrou lucro bilionário, tornando-se referência no setor de óleo e gás.
Expansão e alavancagem
A credibilidade conquistada abriu portas no sistema financeiro. A partir de 2018, o empresário ampliou investimentos em energia, saúde, varejo e telecomunicações. Tornou-se acionista relevante da Light, investiu na Aliança Saúde, adquiriu a Copel Telecom — posteriormente rebatizada como Liga Telecom — e assumiu posições na Gafisa e na rede Dia.
Parte desse crescimento foi sustentada por dívida e garantias cruzadas. Investigações divulgadas pela Polícia Federal apontaram relação financeira intensa entre empresas do grupo e o Banco Master. O modelo incluía financiamento de aquisições, aplicação de recursos em CDBs do próprio banco e retroalimentação do crédito. Enquanto o ciclo funcionou, houve expansão patrimonial e fortalecimento de balanços.
Liquidação e efeito dominó
Com a liquidação do Banco Master, ativos ficaram indisponíveis para apuração. Empresas ligadas ao grupo tiveram recursos bloqueados, afetando compromissos operacionais e financeiros. Credores passaram a executar garantias.
Na Aliança Saúde, a participação de Tanure caiu de 67% para menos de 7%, com credores assumindo parcela majoritária. Na Light, cerca de 10% das ações foram executadas, e fundos vinculados ao empresário foram desfeitos. Instituições como BTG Pactual e Santander ampliaram influência nas decisões, inclusive no contexto de recuperação judicial.
Parte da participação na Prio também havia sido oferecida como garantia a um banco estrangeiro. Com ajustes societários e vendas de ativos, cerca de 17% das ações foram alienadas para redução de exposição. A companhia segue sob comando de seu filho, Nelson Queiroz Tanure, mas desvinculada dos demais negócios do pai.
Investigações e reestruturação
A Polícia Federal apura, na operação “Compliance Zero”, possível utilização de estruturas no exterior para organização patrimonial e eventual participação indireta no Banco Master. As investigações ainda estão em curso e não há conclusão definitiva sobre irregularidades.
Enquanto isso, ativos remanescentes, como a Liga Telecom, estão em negociação para venda à Brasil Tech, movimento visto como tentativa de geração de caixa para redução de passivos.
Um modelo sob pressão
Especialistas do mercado financeiro costumam destacar que a alavancagem potencializa ganhos, mas amplia perdas quando há ruptura no crédito. No caso de Tanure, a dependência de financiamento estruturado e garantias cruzadas expôs o grupo à interrupção do fluxo financeiro.
O empresário construiu carreira apostando em ativos depreciados e transformando crises em oportunidade. O cenário atual, contudo, é marcado por credores no comando de ativos estratégicos e por investigações em andamento.
A trajetória de reconstrução, se ocorrer, dependerá de reequilíbrio financeiro, desinvestimentos e eventual recuperação de credibilidade no mercado. A história do investidor que se destacou por operar no limite entra agora em uma nova fase, ainda indefinida.
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