Área devastada em fazenda de Márcio Nunes expõe contradição de ex-chefe do meio ambiente
Vínculo do ex-secretário com área rural surge em meio a denúncias e expõe contradições entre discurso de modernização e fragilização do controle ambiental
Vídeos enviados à equipe de reportagem da Gazeta do Paraná e imagens aéreas obtidas durante a apuração mostram uma ampla área de devastação na Fazenda Indiana, na região de Campo Mourão. Os registros indicam avanço de maquinário pesado sobre a vegetação, com abertura de clareiras extensas e sinais recentes de intervenção no solo.
A propriedade pertence ao deputado estadual Márcio Nunes, ex-secretário de Desenvolvimento Sustentável e Turismo. A confirmação foi feita pela reportagem a partir de depoimentos constantes em processo judicial analisado, nos quais Nunes é identificado como proprietário da área. Não se trata, portanto, de inferência, mas de informação extraída de autos judiciais.

As imagens analisadas mostram o que aparenta ser supressão contínua de cobertura vegetal em diferentes pontos da fazenda. Em alguns trechos, a vegetação já foi completamente retirada; em outros, o desmatamento ainda parece em curso. A extensão da área impactada levanta questionamentos imediatos sobre a regularidade ambiental das intervenções.
Até o momento, não há confirmação oficial de autuações, embargos ou investigações envolvendo a Fazenda Indiana por parte do Instituto Água e Terra ou do Ministério Público do Paraná. Também não houve manifestação pública específica do deputado sobre as imagens ou sobre a situação da propriedade.
Mas o caso não se limita à análise de uma área rural. Ele ganha densidade porque se conecta diretamente ao modelo de política ambiental implementado por Nunes a partir de 2019, quando assumiu o comando da pasta.
Sob sua gestão, o Paraná promoveu uma inflexão clara: o licenciamento ambiental deixou de ser, prioritariamente, um instrumento de controle para se tornar um mecanismo de liberação. A flexibilização de regras, a redução de etapas e a transferência de atribuições a agentes externos ao Estado alteraram profundamente a engrenagem institucional.
Na prática, isso significou uma mudança de lógica. Técnicos passaram a atuar sob pressão por prazos mais curtos, enquanto o crivo estatal sobre empreendimentos foi diluído. A autorização para que profissionais credenciados, fora da estrutura do órgão ambiental, participassem da emissão de licenças abriu uma zona cinzenta de responsabilização. Quando o Estado deixa de ser o único emissor, também deixa de ser o único controlador.
Os efeitos dessa política não são imediatos — e talvez por isso tenham sido subestimados. Eles se acumulam. Com menos rigor na análise e menor capacidade de fiscalização, o sistema passa a operar com brechas. E brechas, no campo ambiental, raramente permanecem vazias.
Fontes técnicas ouvidas ao longo dos últimos anos descrevem um ambiente de progressivo enfraquecimento institucional. Equipes reduzidas, perda de quadros experientes e sobrecarga operacional comprometeram a capacidade de monitoramento. O órgão ambiental, que deveria atuar como barreira, passou a correr atrás de processos já em andamento.
O resultado é um sistema mais rápido, mas menos denso. Mais ágil, mas menos seguro.
Casos recentes reforçam esse diagnóstico. Investigações envolvendo licenciamento ambiental, operações do Gaeco e episódios como a prisão de uma engenheira por fraude em processos, em 2025, indicam que o modelo abriu espaço para distorções. Nenhum desses episódios atinge diretamente Márcio Nunes, mas todos orbitam a estrutura que foi redesenhada durante sua gestão.
É nesse ponto que a Fazenda Indiana deixa de ser um caso isolado e passa a funcionar como símbolo. Não porque haja, até aqui, comprovação de ilegalidade, mas porque reúne, no mesmo lugar, dois elementos centrais: a figura do gestor que promoveu a flexibilização e uma área que agora apresenta sinais de intervenção ambiental relevante.
A coincidência não é irrelevante. Ela expõe, de forma concreta, o que antes era discutido apenas no plano teórico: o que acontece quando o sistema de controle é flexibilizado e, anos depois, a fiscalização precisa lidar com seus efeitos.
O retorno de Márcio Nunes à Assembleia Legislativa amplia o alcance político do caso. Fora do Executivo e novamente no Legislativo, ele volta ao centro do debate em um momento de reposicionamento eleitoral. A pressão por explicações tende a crescer na mesma proporção em que as imagens circulam.
Até aqui, o que se tem é um conjunto de elementos que se encaixam com precisão desconfortável: uma propriedade identificada, um proprietário confirmado por via judicial, imagens que indicam intervenção significativa e um histórico de políticas que reduziram o peso do controle ambiental no Estado.
O que ainda não veio é a resposta institucional.
E é justamente essa ausência que transforma o caso da Fazenda Indiana em algo maior do que uma denúncia localizada. Ele passa a representar o teste mais concreto, até agora, dos limites — e das consequências — do modelo ambiental adotado no Paraná nos últimos anos.
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