Câmara de Curitiba aprova comissão sobre moradores de rua em sessão tensa
Proposta de constituição de comissão especial provoca confronto político, questionamentos regimentais e troca de acusações sobre políticas públicas em Curitiba
A votação de um requerimento para constituição de uma comissão especial sobre a população em situação de rua dominou a sessão desta segunda-feira (30) da Câmara Municipal de Curitiba e expôs um racha político no plenário. O debate, que deveria tratar da criação de um grupo de estudos, acabou se transformando em um embate direto sobre responsabilidade, políticas públicas e até intenções eleitorais.
O requerimento, apresentado pelo vereador Guilherme Kilter, propõe a criação de uma comissão especial com prazo determinado para debater o crescimento da população em situação de rua, avaliar políticas públicas e propor soluções. A iniciativa foi alvo de críticas desde o início da discussão.
“Não é criando comissão que se resolve o problema. Isso aqui é uma tentativa de parecer que está fazendo alguma coisa”, afirmou a vereadora Vanda de Assis ao se posicionar contra o requerimento.
Ela argumentou que a Câmara já possui instrumentos suficientes para tratar do tema. “Nós já temos comissões permanentes e uma frente parlamentar específica. O debate não acontece porque não querem fazer”, disse.
A crítica ganhou contornos técnicos com a fala da vereadora Laís Leão, que questionou a legalidade do requerimento à luz do regimento interno da Casa. “O regimento é claro. Não se pode criar comissão especial para tratar de tema que já é competência de comissões permanentes”, afirmou.
Na mesma linha, a vereadora Georgia Prates reforçou o argumento. “Se votarmos a favor, estaremos votando contra o regimento da própria Câmara”, disse.
Apesar das contestações, o autor do requerimento reagiu com dureza e elevou o tom do debate. Guilherme Kilter acusou a oposição de impedir avanços na discussão.
“Eu quero trabalhar, quero apresentar soluções, quero fiscalizar o Executivo. Mas aparentemente a esquerda e o PT não querem trabalhar. Não querem que esse problema seja resolvido”, afirmou.
Na sequência, criticou diretamente os parlamentares contrários à proposta. “Vocês vêm aqui, criticam, criticam e não apresentam absolutamente nada. Eu estou apresentando uma solução e vocês votam contra.”
O vereador também sugeriu motivação política na resistência ao requerimento. “Talvez porque, se essas pessoas conseguirem emprego e saírem da rua, parem de votar em vocês”, disse.
A fala provocou reação imediata. A vereadora Camila Gonda rebateu e apontou que o tema já é debatido em outros espaços da Câmara.
“O vereador diz que não consegue trabalhar, mas não participa dos espaços que já existem. Há reuniões, debates e propostas sendo construídas”, afirmou. Em seguida, questionou a motivação da proposta. “Isso não é sobre resolver o problema, é sobre direcionar politicamente o debate.”
O confronto avançou quando vereadores da base associaram o crescimento da população em situação de rua ao uso de drogas e criticaram políticas sociais.
“A maioria dessas pessoas não está na rua por falta de emprego, mas por causa do crack”, afirmou um parlamentar durante a discussão.
Outro vereador foi além ao dizer que “a esquerda não quer resolver o problema, quer manter essas pessoas na dependência”.
As declarações foram rebatidas pela oposição. “Estamos falando de um problema complexo, que envolve saúde mental, desigualdade e políticas públicas. Reduzir isso a uma questão de droga é irresponsável”, respondeu Camila Gonda.
Durante o debate, também foram apresentados dados sobre a situação na capital. Segundo Vanda de Assis, Curitiba tem mais de 4 mil pessoas em situação de rua, enquanto a estrutura de acolhimento não chega a 1.700 vagas.
“Hoje não há política integrada. Falta moradia, falta saúde, falta trabalho. A pessoa é acolhida e no dia seguinte volta para a rua porque não há continuidade”, afirmou.
Mesmo entre vereadores favoráveis ao requerimento, houve reconhecimento da complexidade do tema. “Esse é um dos maiores desafios da cidade. Não se resolve com uma única política ou comissão”, disse Marcos Vieira.
Apesar das críticas, inclusive quanto à possível incompatibilidade com o regimento interno, o requerimento de constituição da comissão especial foi aprovado por ampla maioria, com 28 votos favoráveis e 6 contrários.
Com isso, a Câmara deverá instalar o colegiado em meio a um cenário de disputa política crescente sobre como Curitiba deve enfrentar o avanço da população em situação de rua. O tema ultrapassou o campo técnico e se consolidou como um dos principais pontos de conflito no Legislativo municipal.
Matérias relacionadas
Moro nega uso político de eventos da Fiep em ação eleitoral no Paraná
Gazeta checa declarações de Sandro Alex, Requião Filho e Sergio Moro em sabatinas da Massa FM Cascavel
Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados em nova rodada de pesquisas para presidente
TRE-PR libera pesquisa Quaest após instituto apresentar comprovantes e esclarecer questionamentos
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.