Feminicídios crescem pelo quarto ano seguido no Brasil e atingem maior patamar da série histórica
País registrou 1.571 mulheres assassinadas por razões de gênero em 2025; anuário aponta aumento também em ameaças, descumprimento de medidas protetivas e tentativas de feminicídio
O Brasil voltou a registrar aumento no número de feminicídios em 2025. Segundo a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), foram contabilizados 1.571 casos ao longo do ano, alta de 4% em relação a 2024, quando houve 1.504 registros.
O levantamento mostra que este é o quarto ano consecutivo de crescimento do crime no país. Desde que o feminicídio foi tipificado no Código Penal, em 2015, o número de ocorrências aumentou 69,1%, passando de 929 casos registrados em 2016 para os atuais 1.571.
Crescimento preocupa pesquisadores
Para a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, o aumento registrado em 2025 supera o ritmo observado nos últimos anos.
Segundo ela, enquanto os avanços anteriores variavam entre 1% e 2%, a alta de 4% acende um alerta sobre a efetividade das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.
Samira destaca que o Brasil avançou na legislação, especialmente com a Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em agosto, mas avalia que a aplicação prática dessas normas ainda enfrenta dificuldades.
"O Brasil vinha com crescimento dos feminicídios ano a ano, mas não com um crescimento tão significativo, de 4%, como a gente viu agora", afirmou.
Estados registram altas expressivas
Entre os estados, os maiores aumentos percentuais de feminicídios ocorreram no:
- Amapá: 347%;
- Acre: 74,3%;
- Rondônia: 66%;
- Tocantins: 52,8%;
- Sergipe: 49,4%;
- Paraíba: 37,8%.
Em números absolutos, São Paulo lidera o ranking nacional, com 270 feminicídios, seguido por:
- Minas Gerais: 117 casos;
- Rio de Janeiro: 105;
- Bahia: 102.
Quando considerada a taxa por 100 mil mulheres, os maiores índices foram registrados no:
- Acre: 3,2;
- Rondônia: 2,9;
- Mato Grosso: 2,7;
- Tocantins: 2,5;
- Amapá: 2,2.
Feminicídios crescem enquanto homicídios caem
O anuário chama atenção para o fato de que os feminicídios seguem aumentando mesmo com a redução dos homicídios no Brasil.
As pesquisadoras Isabella Matosinhos e Juliana Brandão, responsáveis pela análise do estudo, explicam que o feminicídio possui características diferentes das demais mortes violentas, já que ocorre, na maioria das vezes, dentro do ambiente doméstico e familiar.
Segundo o levantamento, 79,8% dos autores dos crimes eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.
Os companheiros atuais responderam por 60,9% das ocorrências, enquanto os ex-companheiros representaram 18,9% dos casos.
Outros crimes contra mulheres também aumentaram
O estudo aponta crescimento em diversos crimes que costumam anteceder o feminicídio.
Entre eles estão:
- perseguição (stalking): alta de 30,1%;
- violência psicológica: aumento de 16,9%;
- descumprimento de medidas protetivas: crescimento de 16,7%;
- ameaças: alta de 0,5%, somando 788.531 registros.
Também aumentaram os casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica.
Foram 286.270 ocorrências em 2025, o equivalente a uma mulher agredida a cada dois minutos no país.
Para as pesquisadoras do Fórum, a violência de gênero costuma ocorrer de forma progressiva.
"A violência de gênero costuma ser cumulativa, progressiva e escalonada. Raramente ela começa pelo ato mais grave", destacam.
Tentativas de feminicídio também cresceram
O número de tentativas de feminicídio passou de 3.940 casos em 2024 para 4.189 em 2025, um aumento de 5,9%.
Segundo o anuário, esses casos representam situações em que o autor tentou matar a vítima, mas não conseguiu consumar o crime por circunstâncias alheias à sua vontade.
Medidas protetivas são descumpridas a cada quatro minutos
O levantamento mostra ainda que, entre os 18 estados que forneceram informações ao Fórum, 70 mulheres assassinadas por feminicídio possuíam medida protetiva ativa no momento do crime, o equivalente a 8,8% dos casos analisados.
Além disso, o Brasil registrou 132.025 descumprimentos de medidas protetivas em 2025, alta de 16,7% em relação ao ano anterior.
O número representa, em média:
- 362 descumprimentos por dia;
- 15 por hora;
- uma violação da medida protetiva a cada quatro minutos.
Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados demonstram que, embora o país disponha de um amplo conjunto de leis para combater a violência contra a mulher, ainda há dificuldades na implementação e na efetividade das medidas de proteção destinadas às vítimas.
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