Frangogate cruza fronteira e conecta obra de R$ 365 milhões a condomínio Mirante da Serra em Santa Catarina
Vídeo de Homero Marchese relaciona acordo no STF, duplicação da SC-417 e empreendimento divulgado por Ratinho; urbanizadora ABecker aparece como responsável pelo projeto em Garuva
O chamado “Frangogate” avançou para fora do Paraná e passou a envolver uma obra de R$ 365 milhões em Santa Catarina, um acordo judicial entre estados e um empreendimento imobiliário ligado a nomes próximos ao governo. Em vídeo publicado nas redes, o ex-deputado Homero Marchese afirma que o padrão já identificado no interior do Paraná agora se repete em outro nível, com impacto direto sobre recursos públicos e valorização imobiliária em território vizinho.
Segundo Marchese, a origem da obra está em uma disputa no Supremo Tribunal Federal entre Paraná e Santa Catarina sobre limites marítimos e divisão de royalties do petróleo. Com decisão favorável a Santa Catarina, o governo paranaense reconheceu um débito estimado em cerca de R$ 272 milhões e optou por quitá-lo por meio de investimento em infraestrutura.
A solução adotada foi a duplicação da rodovia SC-417, em um trecho de aproximadamente 20 quilômetros entre a divisa de Guaratuba e Garuva até a BR-101. O projeto inclui três viadutos e tem custo total estimado em R$ 365 milhões. A diferença de cerca de R$ 92 milhões entre o valor do débito e o custo da obra será absorvida pelo próprio governo do Paraná, conforme relatado no vídeo.
A denúncia avança ao conectar esse investimento a um empreendimento imobiliário localizado em Garuva. Marchese afirma que, no fim de 2024, o apresentador Ratinho, pai do Ratinho Júnior, passou a atuar como investidor e divulgador do condomínio fechado Mirante da Serra.
Um vídeo publicitário divulgado em fevereiro reforça essa atuação. “Eu trouxe aqui um convite muito especial para você […] o Mirante da Serra é um condomínio fechado, com toda a infraestrutura”, afirma Ratinho, ao convidar interessados para o lançamento oficial do empreendimento. No material, ele também destaca condições facilitadas de pagamento e o potencial de valorização.
O condomínio é apresentado como um projeto de alto padrão voltado ao mercado imobiliário regional, com foco em valorização e localização estratégica. A urbanizadora responsável é a ABecker, empresa sediada em Joinville e comandada pelo empresário Anderson Becker. Segundo informações institucionais, Becker atua há mais de duas décadas no setor de urbanização e incorporação, com projetos voltados ao desenvolvimento de loteamentos e condomínios no Sul do país.
A presença da empresa no empreendimento adiciona uma camada empresarial ao caso, que até então vinha sendo estruturado a partir da relação entre obras públicas e propriedades rurais no interior do Paraná. No vídeo, Marchese associa diretamente a duplicação da rodovia ao potencial de valorização do condomínio. “Certamente, um grande potencial de valorização, já que a rodovia entre Paraná e Santa Catarina vai ser duplicada”, afirma. Em seguida, questiona. “Não é curioso que o dinheiro dos paranaenses pareça estar servindo ao desenvolvimento de empreendimentos imobiliários?”
A nova frente amplia um padrão que já vinha sendo apontado em municípios como São Jorge do Patrocínio, Pérola, Esperança Nova e Iporã. Nessas cidades, o ex-deputado relacionou investimentos públicos em pavimentação de estradas com propriedades adquiridas por agentes públicos e seus círculos próximos, além da presença de empreendimentos rurais.
Em São Jorge do Patrocínio, por exemplo, foi citada uma obra de cerca de R$ 5 milhões em estrada rural. A reportagem da Gazeta do Paraná identificou um contrato de terraplenagem de R$ 2,28 milhões no Portal da Transparência do município, sem acesso à íntegra do documento e às atas da licitação. Em Pérola, o valor mencionado foi de aproximadamente R$ 6,5 milhões. Em Esperança Nova, os investimentos apontados somam cerca de R$ 12,5 milhões em duas estradas. Em Iporã, Marchese citou propriedades ligadas ao chefe de gabinete do governo e ao próprio governador, além de um novo investimento superior a R$ 7 milhões.
Com a inclusão da obra em Santa Catarina, o “Frangogate” deixa de ser uma sequência de casos regionais e passa a envolver decisões de alto impacto financeiro entre estados, acordos judiciais e investimentos estratégicos em infraestrutura.
A escala muda, mas o eixo da denúncia permanece o mesmo. A coincidência entre investimento público e valorização privada.
O avanço do caso amplia o debate sobre os critérios que orientam a aplicação de recursos públicos e seus efeitos sobre interesses econômicos, agora com alcance que ultrapassa as fronteiras do estado.
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