Ideb em alta não esconde problemas da educação do Paraná, diz sindicato
APP-Sindicato questiona uso do indicador e afirma que pressão por resultados pode mascarar dificuldades enfrentadas nas escolas estaduais
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O Paraná alcançou em 2025 os maiores resultados de sua série histórica no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), mas, para a APP-Sindicato, os números não são suficientes para representar a realidade da educação pública no Estado. A entidade afirma que, por trás do avanço do indicador, existem problemas relacionados à formação dos estudantes, às condições de trabalho dos professores, à inclusão e à própria forma como a rede estadual se prepara para as avaliações.
Durante coletiva realizada na quarta-feira (5), o Ministério da Educação (MEC) informou que o Ideb avançou em todas as etapas da educação básica no país. No Paraná, o índice passou, entre 2023 e 2025, de 6,7 para 7 nos anos iniciais do ensino fundamental; de 5,5 para 5,9 nos anos finais; e de 4,9 para 5,1 no ensino médio. Considerando apenas a rede pública estadual, os resultados foram de 6,5 para 6,9 nos anos iniciais, de 5,4 para 5,8 nos anos finais e de 4,7 para 5,1 no ensino médio.
O Ideb combina dois componentes: o desempenho dos estudantes em avaliações e o fluxo escolar, calculado a partir das taxas de aprovação. As provas utilizadas são as do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que, entre os componentes considerados, concentram a avaliação em Língua Portuguesa e Matemática. O próprio desenho do indicador, portanto, não contempla todas as dimensões presentes no cotidiano escolar.
É justamente nesse ponto que está uma das principais críticas da presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto. Segundo ela, o crescimento do Ideb não pode ser interpretado isoladamente como sinônimo de melhora da educação. A dirigente afirma que o governo estadual passou a direcionar parte da rotina das escolas para o desempenho no Saeb, com simulados, treinamentos e repetição do formato das provas.
“Todo trimestre, provas e mais provas são aplicadas exaustivamente para que os estudantes peguem o método da prova do Saeb, o que não necessariamente produz conhecimento, mas melhora o desempenho da rede no exame”, afirma.
Para a entidade, a concentração em Português e Matemática também provoca consequências sobre outras áreas do conhecimento. Walkiria critica a redução da carga horária de disciplinas como História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Artes, Espanhol e Educação Física. Na avaliação do sindicato, como esses conteúdos não têm o mesmo peso na composição do Ideb, acabam perdendo espaço dentro da matriz curricular.
Outro ponto levantado é a pressão sobre professores, equipes pedagógicas e direções. A APP-Sindicato afirma ter recebido relatos de cobrança para elevar os resultados, especialmente nos anos em que o Saeb é aplicado. Segundo Walkiria, essa pressão aumenta a burocracia, reduz a autonomia pedagógica e pode contribuir para o adoecimento dos profissionais.
A entidade também questiona a relação entre aprovação dos estudantes e resultado do Ideb. Como o fluxo escolar integra a composição do índice, taxas maiores de aprovação contribuem para o resultado final. Walkiria afirma que existem situações em que estudantes são promovidos mesmo sem terem alcançado o nível de aprendizagem esperado.
A política de bonificação vinculada ao desempenho no Ideb é outro alvo de críticas. Criado durante a gestão do governador Ratinho Junior (PSD), o programa prevê premiação para escolas que atingirem determinadas metas. Para o sindicato, atrelar remuneração ou reconhecimento institucional ao indicador cria uma competição entre escolas e pode estimular estratégias voltadas mais ao cumprimento da meta do que à melhoria efetiva da aprendizagem.
A APP-Sindicato também relata problemas relacionados à participação dos estudantes no Saeb. Segundo Walkiria, haveria casos de alunos com baixo desempenho ou necessidades específicas sendo desestimulados a participar da avaliação, além da concentração de esforços nas turmas diretamente avaliadas. A dirigente afirma ainda que estudantes com tempos diferenciados de aprendizagem teriam sido orientados a não realizar a prova.
Na avaliação do sindicato, outro limite do Ideb é que o índice não consegue medir aspectos como pensamento crítico, formação cidadã, inclusão, desenvolvimento socioemocional, participação da comunidade escolar, clima escolar e acesso às diferentes áreas do conhecimento.
A desigualdade social também entra na crítica. Para Walkiria, comparar resultados de escolas e municípios sem considerar adequadamente as condições socioeconômicas dos estudantes pode produzir rankings que responsabilizam professores e unidades escolares por dificuldades que também estão relacionadas a fatores externos à sala de aula.
O MEC, por sua vez, apresenta os números de 2025 como avanço da educação básica. No Paraná, os resultados atingiram os maiores patamares da série histórica iniciada em 2005. O debate, porém, permanece sobre o que exatamente esses números conseguem revelar sobre a qualidade do ensino.
Para a APP-Sindicato, o Ideb pode ser utilizado como um dos instrumentos de avaliação, mas não como retrato completo da educação. A entidade defende que a análise considere também as condições de trabalho dos profissionais, a inclusão, a aprendizagem efetiva e a formação integral dos estudantes.
A discussão coloca em lados diferentes duas formas de interpretar os resultados: de um lado, os números apontam evolução consistente do Paraná; de outro, professores questionam se a melhora do indicador é acompanhada, na mesma proporção, pela qualidade do ensino oferecido diariamente nas escolas.
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