Lito Sousa deixa hospital e segue tratamento com cuidados paliativos
Criador de conteúdo, que tem doença de Creutzfeldt-Jakob, passou a receber atendimento em casa, mas família continua buscando alternativas experimentais para o tratamento.
Depois de mais de 20 dias internado, Lito Sousa deixou o hospital e passou a receber cuidados em casa. O térreo da residência onde o criador de conteúdo está morando foi adaptado para reproduzir parte da estrutura de uma internação, com equipamentos e enfermeiros em turnos que garantem assistência durante as 24 horas.
Aos 59 anos, Lito foi diagnosticado com Creutzfeldt-Jakob, uma doença neurológica rara provocada por proteínas anormais chamadas príons. Até o momento, não existe tratamento capaz de reverter ou interromper a evolução da doença.
O criador de conteúdo passou a ser acompanhado por uma equipe de cuidados paliativos. A saída do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, ocorreu na terça-feira (1º), mas não encerrou a busca da família por alternativas de tratamento.
Os familiares continuam tentando conseguir a inclusão de Lito em estudos experimentais. O Ministério da Saúde também solicitou a inclusão dele em uma pesquisa experimental nos Estados Unidos.
A indicação de cuidados paliativos, porém, não significa que o tratamento tenha chegado ao fim. A expressão ainda costuma ser associada aos últimos dias de vida, mas especialistas explicam que esse tipo de assistência pode ser iniciado em diferentes fases de uma doença grave e continuar paralelamente a outros tratamentos.
Cuidados paliativos não significam desistência
Os cuidados paliativos são voltados ao controle do sofrimento causado por doenças graves. A assistência pode começar independentemente do tempo estimado de vida do paciente.
O objetivo é controlar sintomas físicos, como dor, falta de ar, náusea, vômito, fadiga, insônia e constipação. O atendimento também inclui suporte psicológico, social e orientação para familiares.
A proposta é que a equipe responsável pelo tratamento da doença continue acompanhando o paciente, caso essa seja sua escolha, enquanto os profissionais de cuidados paliativos ajudam a controlar os sintomas e organizam a comunicação entre paciente, família e equipe médica.
A abordagem também pode ajudar nas decisões sobre tratamentos mais agressivos. Caso o paciente decida interromper alguma terapia no futuro, a escolha pode ser feita de maneira informada e com tempo para discutir as consequências.
Quando os cuidados paliativos começam mais cedo, essas conversas podem ocorrer sem a pressão de uma situação de emergência.
Por que o termo ainda causa confusão
Parte da resistência aos cuidados paliativos está relacionada ao significado que a expressão ganhou no imaginário popular.
Juliana Dantas, cofundadora do Instituto Ana Michelle Soares e diretora de comunicação do Movimento inFINITO, e Tom Almeida, fundador do movimento e presidente da entidade, avaliam que a associação entre cuidados paliativos e desistência do tratamento ainda é uma das principais barreiras para ampliar esse tipo de assistência.
Segundo os especialistas, muitos pacientes acabam recusando o acompanhamento por entender que a indicação significa que não há mais nada a fazer. Profissionais também podem deixar para acionar equipes especializadas apenas nas fases mais avançadas da doença.
O atraso pode dificultar o trabalho. Quando a equipe de cuidados paliativos entra somente nos últimos momentos, há menos tempo para conhecer o paciente, criar vínculo e discutir decisões de forma compartilhada.
No Brasil, a Política Nacional de Cuidados Paliativos foi instituída pelo Ministério da Saúde em maio de 2024. A política prevê esse tipo de assistência em todos os níveis do Sistema Único de Saúde (SUS).
A implementação, porém, depende da participação de estados e municípios. A habilitação oficial de equipes especializadas ainda é recente e os serviços continuam concentrados principalmente no Sudeste, enquanto outras regiões possuem oferta mais limitada.
Outro desafio é a formação dos profissionais.
O ensino de cuidados paliativos não é obrigatório na maior parte dos cursos de medicina e enfermagem. Muitos hospitais continuam organizados principalmente para tratar situações agudas e buscar a reversão de quadros clínicos.
Nesse cenário, o controle de sintomas, a comunicação de notícias difíceis e as conversas sobre limites de tratamentos podem receber menos espaço.
O atendimento domiciliar também não está disponível de forma ampla. Quando esse tipo de serviço não chega à casa do paciente, a família pode acabar assumindo grande parte dos cuidados sem acompanhamento técnico permanente.
Cuidado começa por conhecer o paciente
Uma das diferenças apontadas pelos especialistas está na forma como a equipe de cuidados paliativos olha para o paciente.
A geriatra e paliativista Barbara Cury explica que a medicina tradicional costuma concentrar a atenção no diagnóstico e no leito hospitalar. O cuidado paliativo procura entender também a história e a rotina da pessoa.
A equipe busca saber o que é importante para o paciente, de quem ele depende, como era sua vida antes da doença e quais desejos ainda podem ser atendidos.
“Quando a equipe é acionada apenas no processo ativo de morte, não há tempo de criar vínculo. E o vínculo é a base do nosso trabalho”, afirma Barbara.
Esse conhecimento ajuda a orientar decisões sobre internações, suporte médico e limites terapêuticos de acordo com a vontade do paciente, e não apenas com aquilo que os procedimentos médicos permitem fazer.
Por isso, os especialistas defendem que o acompanhamento seja iniciado antes de uma situação de emergência.
O caso de Lito Sousa reúne situações que muitas vezes são vistas como incompatíveis. Mesmo recebendo cuidados paliativos e tendo uma estrutura permanente de assistência em casa, a família continua procurando alternativas experimentais para o tratamento da doença.
O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob
A doença de Creutzfeldt-Jakob é uma enfermidade neurológica rara provocada por príons. Essas proteínas podem assumir uma forma anormal e provocar danos progressivos no cérebro.
Segundo o neurologista José Bauab, os príons se instalam dentro dos neurônios e provocam um processo de destruição que também afeta a glia, tecido responsável por dar suporte às células nervosas.
O avanço da doença produz alterações no tecido cerebral e está relacionado à classificação da enfermidade como uma doença espongiforme.
A Creutzfeldt-Jakob evolui rapidamente e, até o momento, não existe tratamento capaz de interromper ou reverter sua progressão.
Os primeiros sintomas costumam envolver alterações cognitivas, como problemas de memória e mudanças de comportamento. Tremores também podem aparecer. Com a evolução da doença, diferentes regiões do cérebro são afetadas e o comprometimento pode atingir os movimentos.
A enfermidade é mais comum entre pessoas mais velhas. A forma esporádica, que é a mais frequente, costuma surgir entre os 60 e os 80 anos.
Dados do Ministério da Saúde apontam que o Brasil registrou 547 casos confirmados entre 2005 e 2021.
A progressão costuma ser rápida. Segundo dados reunidos pelo Ministério da Saúde, a maior parte dos pacientes vive entre seis meses e um ano após o aparecimento dos primeiros sintomas.
Como não existe terapia capaz de alterar o curso da doença, o tratamento se concentra no controle dos sintomas e na qualidade de vida do paciente.
Apesar disso, pesquisas experimentais continuam em andamento. No caso de Lito, a família segue tentando encontrar alternativas e busca a participação do criador de conteúdo em estudos que possam oferecer novas possibilidades de tratamento.
Matérias relacionadas
Moro nega uso político de eventos da Fiep em ação eleitoral no Paraná
Gazeta checa declarações de Sandro Alex, Requião Filho e Sergio Moro em sabatinas da Massa FM Cascavel
Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados em nova rodada de pesquisas para presidente
TRE-PR libera pesquisa Quaest após instituto apresentar comprovantes e esclarecer questionamentos
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.