MP amplia investigação sobre atuação da PM na UFPR e leva caso ao MPF
Promotoria prorrogou apuração por 90 dias, determinou oitiva da diretora do Setor de Ciências Jurídicas, busca identificar estudantes abordados e cobra do comandante do 33º BPM novos esclarecimentos sobre planejamento, revistas e eventual ingresso de policiais na universidade
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O Ministério Público do Paraná (MPPR) decidiu aprofundar a investigação sobre a atuação da Polícia Militar nas imediações da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, após os episódios ocorridos em setembro de 2025. Depois de receber documentos e explicações da corporação, a 4ª Promotoria de Justiça de Proteção ao Patrimônio Público considerou necessária a realização de novas diligências, prorrogou o procedimento por mais 90 dias e determinou a coleta de depoimentos para tentar reconstruir o que ocorreu.
O caso ganhou ainda uma nova frente. Em 26 de março de 2026, cópia integral dos autos foi encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF), para ciência e eventual adoção de providências dentro das atribuições federais. O expediente foi registrado na Procuradoria da República no Paraná sob o número PR-PR-00043028/2026. O documento de remessa informa que o material foi enviado para “apuração e averiguação de irregularidades de agentes da Polícia Militar” e eventual adoção das medidas consideradas cabíveis pelo órgão federal.
Os documentos obtidos pela Gazeta do Paraná mostram que, apesar das explicações já apresentadas pela Polícia Militar, permanecem questões que a Promotoria pretende esclarecer antes de decidir o destino da investigação. Em despacho assinado em 19 de março, a promotora de Justiça Suzane Maria Carvalho do Prado determinou novas diligências e prorrogou o Procedimento Preparatório nº 0046.25.210305-9 por 90 dias.
A apuração teve origem em uma denúncia anônima apresentada ao MPPR em setembro do ano passado. O relato questionava duas situações envolvendo a atuação policial no entorno da universidade: a concentração de viaturas com sirenes e giroflex acionados diante da UFPR e supostas abordagens de estudantes sem justificativa aparente. O denunciante também levantou suspeitas sobre eventual instrumentalização da estrutura policial em favor de interesses particulares. Tratam-se, contudo, de alegações que deram origem à investigação e não de irregularidades já comprovadas.
MP quer saber se houve ordem para reforçar policiamento na UFPR
Um dos pontos mais relevantes do novo despacho é a decisão de cobrar diretamente do comandante do 33º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Pedro Paulo Porto de Sampaio, respostas para seis questões específicas.
O MP quer saber se houve planejamento específico envolvendo a área da UFPR durante a Operação Sinergia III ou se a presença policial nas proximidades da instituição decorreu simplesmente do policiamento ostensivo realizado normalmente na região central.
A Promotoria também questiona se, antes da operação, existiu alguma “determinação institucional, orientação superior ou informação de inteligência” que indicasse necessidade de intensificar a presença policial nas imediações da UFPR ou da Praça Santos Andrade.
Outro ponto considerado importante pelo MP são as abordagens realizadas naquele período. Caso tenham ocorrido, a Polícia Militar terá de esclarecer quais critérios operacionais foram utilizados para selecionar as pessoas abordadas e informar se havia estudantes da UFPR entre elas.
A Promotoria pergunta ainda se houve orientação específica para abordar determinados grupos, incluindo estudantes, participantes de eventos ou frequentadores da região da universidade. Também quer saber se policiais chegaram a entrar nas dependências internas da UFPR durante a operação e se houve alguma intercorrência relevante que não tenha resultado em registro formal de ocorrência.
Ausência de registros leva MP a buscar testemunhas
Há uma questão particularmente sensível na investigação.
Segundo o próprio despacho do Ministério Público, a Polícia Militar informou que abordagens preventivas que não resultam na constatação de ilícitos não necessariamente produzem registro formal. Para a Promotoria, essa circunstância dificulta a reconstrução dos acontecimentos apenas a partir dos documentos oficiais.
Foi justamente essa lacuna que levou o MP a buscar outras fontes de informação.
“A ausência de registro formal de abordagens preventivas”, conforme registra a promotora, recomenda a obtenção de informações adicionais por meio de oitivas para permitir uma reconstrução mais precisa dos fatos.
Por isso, Suzane determinou a notificação da professora Melina Girardi Fachin, diretora do Setor de Ciências Jurídicas da UFPR, para prestar depoimento sobre os episódios investigados.
O Centro Acadêmico Hugo Simas também deverá informar ao Ministério Público se tem conhecimento de estudantes que tenham sido abordados durante a Operação Sinergia III, realizada nas proximidades da universidade em 18 de setembro de 2025. Caso existam, o MP solicitou nome e telefone para que esses acadêmicos também possam ser ouvidos.
Investigação começou com suspeita de desvio de finalidade
Desde o início, o Ministério Público deixou claro que a abertura da investigação não significava uma conclusão antecipada sobre a conduta dos policiais.
No despacho que deu início à apuração, porém, a Promotoria considerou que os fatos narrados precisavam ser esclarecidos porque, caso fossem comprovados, poderiam configurar abuso de poder e desvio de finalidade, além de possível violação aos princípios constitucionais da moralidade, impessoalidade e legalidade.
O documento foi além e apontou que eventual utilização dolosa da estrutura policial para finalidade de intimidação política ou ideológica, caso demonstrada, poderia ser analisada também sob a ótica da Lei de Improbidade Administrativa.
Na primeira rodada de diligências, o MP requisitou à Polícia Militar informações detalhadas sobre o episódio. Entre outras coisas, pediu as escalas e ordens de patrulhamento dos dias 16, 17 e 18 de setembro, a finalidade do deslocamento das viaturas, a relação dos veículos e policiais empregados e eventuais boletins relacionados às buscas pessoais realizadas em estudantes.
PM nega intimidação
A Polícia Militar, por sua vez, contesta a interpretação de que a Operação Sinergia III tenha sido realizada para intimidar a comunidade acadêmica.
Nos documentos encaminhados ao poder público, a corporação afirma que a divulgação de que o lançamento da operação na Praça Santos Andrade teria como objetivo intimidar integrantes da UFPR seria uma informação “totalmente inverídica e distorcida”.
Segundo a versão apresentada pela PM, comandantes escolhem locais públicos capazes de comportar viaturas e efetivo para o lançamento de operações e consideram também índices estratégicos de criminalidade e violência. A corporação argumenta que, por essas características, praças da região central são utilizadas para esse tipo de concentração operacional.
A PM também informou oficialmente que não publicou nota específica para justificar a Operação Sinergia. Segundo documento do Comando-Geral, a única nota à imprensa produzida naquele contexto tratou da atuação policial no episódio de 9 de setembro de 2025.
Visita de major a advogado também entrou na apuração
Outro episódio incorporado à investigação foi uma visita realizada pelo major Holler, uniformizado, ao advogado Jeffrey Chiquini, envolvido nos acontecimentos anteriores na UFPR.
A Promotoria havia questionado se a visita possuía caráter institucional e quais eram as regras da corporação para a divulgação desse tipo de encontro nas redes sociais.
A explicação apresentada pela Polícia Militar foi de que a visita ocorreu por iniciativa do próprio oficial e teria como finalidade convidar Chiquini para uma solenidade. Segundo a corporação, o encontro não teria relação com ordem ou orientação institucional.
A PM acrescentou que o major não pertencia ao 33º BPM, responsável territorialmente pela região da UFPR, mas comandava interinamente o 12º BPM, cuja área de atuação é distinta.
Caso chega ao Ministério Público Federal
A investigação ganhou nova dimensão poucos dias depois da decisão de prorrogar as diligências.
Em 26 de março, a 4ª Promotoria encaminhou cópia integral dos autos ao Ministério Público Federal. O comprovante do protocolo mostra que o destinatário foi o gabinete do procurador-chefe da Procuradoria da República no Paraná.
O documento registra que o envio ocorreu por determinação da promotora Suzane Maria Carvalho do Prado e menciona a apuração de irregularidades atribuídas a agentes da Polícia Militar e a eventual adoção de providências pelo MPF dentro de sua esfera de atribuição.
A remessa dos autos, por si só, não significa que o Ministério Público Federal tenha concluído pela existência de irregularidades, nem os documentos analisados pela reportagem demonstram, até aqui, a abertura de uma investigação federal autônoma. O que está comprovado é que o MPPR entendeu que os fatos também deveriam ser levados ao conhecimento do órgão federal.
Apuração continua aberta
Mais de seis meses depois dos acontecimentos que deram origem à denúncia, portanto, o caso não foi arquivado.
Ao contrário, o Ministério Público estadual decidiu ampliar a coleta de informações antes de deliberar sobre o futuro do procedimento.
O despacho estabelece que, depois da realização das oitivas e da chegada das novas respostas requisitadas à Polícia Militar, os autos deverão retornar à promotora para decisão sobre o prosseguimento do caso.
O ponto central da investigação permanece em aberto: saber se a concentração de viaturas e as abordagens realizadas no entorno da UFPR fizeram parte exclusivamente de uma operação regular de segurança pública, como sustenta a Polícia Militar, ou se houve alguma atuação direcionada à comunidade universitária, hipótese que levou o Ministério Público a instaurar a apuração.
Agora, além dos documentos oficiais apresentados pela corporação, a Promotoria quer ouvir quem estava do outro lado da operação.
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