MP coloca na mira shows de R$ 774 mil em Campo Largo e aponta “contradição insustentável” nos gastos
Documentos obtidos pela Gazeta mostram que Ministério Público confrontou cachês de Naiara Azevedo e Edson & Hudson com filas na saúde mental, unidade de acolhimento interditada e negativas da Prefeitura por falta de recursos
🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA
Dias antes de Campo Largo levar ao palco da 5ª Festa do Agricultor os shows nacionais de Naiara Azevedo e Edson & Hudson, o Ministério Público do Paraná (MPPR) já havia colocado os gastos do município sob investigação. Documentos obtidos pela Gazeta do Paraná revelam que os R$ 774 mil destinados aos cachês foram confrontados pelo próprio MP com um cenário de filas na saúde mental, precariedade no atendimento de crianças e adolescentes e negativas da Prefeitura para serviços sociais sob a justificativa de falta de recursos.
A apuração ganha relevância poucos dias depois de levantamento publicado pela Gazeta, com base em dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR), revelar que Campo Largo gastou R$ 10,5 milhões com shows e festividades desde 2021, o quarto maior montante entre os municípios da Região Metropolitana de Curitiba. Em 2026, o município também apareceu com o maior percentual de comprometimento da Receita Corrente Líquida com esse tipo de despesa entre as cidades analisadas, embora o índice seja baseado em um exercício ainda em andamento.
O novo elemento é que parte desses gastos já havia provocado uma reação concreta do Ministério Público. O Inquérito Civil nº 0023.26.001126-9 foi instaurado para apurar a regularidade, razoabilidade e legalidade das contratações artísticas da 5ª Festa do Agricultor e verificar a correta priorização do orçamento público de Campo Largo. A portaria foi assinada pela promotora Mariana Andreola de Carvalho Silva.
R$ 774 mil em dois shows
O foco imediato da investigação são duas contratações realizadas por inexigibilidade de licitação. A Prefeitura acertou R$ 354 mil com Naiara Azevedo, para uma apresentação de aproximadamente 1h20, e R$ 420 mil com Edson & Hudson, para show previsto em cerca de 1h30. Juntas, as duas atrações custaram R$ 774 mil aos cofres municipais.
A investigação teve origem em um Pedido de Providências apresentado pelo vereador Luiz Gustavo Torres. Segundo decisão do MP, o parlamentar apontou uma suposta preterição de demandas essenciais diante dos gastos da administração municipal e citou, entre outros problemas, a situação da unidade de acolhimento institucional.
O caso inicialmente passou pela Promotoria com atribuição na área da Infância e Juventude, mas acabou remetido à 1ª Promotoria de Justiça, responsável pelo Patrimônio Público. Na decisão, o MP registrou a existência de “fortes indícios de preterição” de demandas relacionadas à infância e juventude em favor de shows de alto custo.
MP fala em “contradição insustentável”
A decisão que converteu a Notícia de Fato em Inquérito Civil vai além de questionar os valores dos cachês. O Ministério Público colocou lado a lado os gastos com entretenimento e a situação encontrada em serviços considerados essenciais.
Segundo o documento, a Unidade de Acolhimento Institucional Tatiane Mariane Almeida Leitão estava sob interdição parcial, diante de problemas estruturais e deficiência de recursos humanos. Ao mesmo tempo, 944 crianças e adolescentes aguardavam atendimento em saúde mental, incluindo 211 casos suspeitos ou diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A situação levou o MP a utilizar uma expressão incomum pela contundência. Para a Promotoria, os elementos reunidos revelavam uma “contradição insustentável” na conduta do Executivo: enquanto a administração alegava escassez orçamentária para determinadas demandas sociais, destinava R$ 774 mil aos dois shows da Festa do Agricultor.
E os R$ 774 mil não aparecem isoladamente na análise ministerial. O MP também registrou que Campo Largo já havia desembolsado outros R$ 674 mil para contratar Maiara & Maraisa. Esse show, entretanto, não integrou a Festa do Agricultor e não compõe os R$ 774 mil diretamente questionados no inquérito.
Crianças esperavam mais de três anos
O quadro apresentado pela Promotoria é ainda mais amplo. Relatório da 3ª Promotoria aponta que o Centro Municipal de Atendimento Educacional Especializado (CEMAE) tinha 334 estudantes matriculados e realizava 721 atendimentos semanais, enquanto havia filas com espera superior a três anos.
Eram 168 estudantes aguardando psicologia, 146 terapia ocupacional, 71 fonoaudiologia e 20 fisioterapia. Uma análise técnica apontou ainda a necessidade de contratação de pelo menos 15 professores, quatro psicólogos, três terapeutas ocupacionais e dois fonoaudiólogos.
A própria Promotoria relacionou diretamente o quadro às escolhas orçamentárias do município. No relatório, afirmou haver incompatibilidade jurídica na destinação de recursos para eventos festivos quando existem gastos públicos obrigatórios e urgentes desassistidos.
MP chegou a buscar suspensão dos shows
O ponto mais contundente da documentação está no desfecho adotado antes da realização da festa. Ao converter a apuração em Inquérito Civil, diante da proximidade do evento, a promotora determinou o retorno dos autos para propositura de Ação Civil Pública.
A decisão registra que a investigação deveria avançar visando à suspensão das contratações artísticas questionadas e à realocação das verbas para políticas públicas essenciais desassistidas.
Os shows, contudo, aconteceram. Naiara Azevedo se apresentou em 1º de agosto e Edson & Hudson no dia seguinte, no Parque Newton Puppi. Segundo balanço divulgado posteriormente pela Prefeitura, a Festa do Agricultor recebeu cerca de 91 mil visitantes durante os dois dias.
Agora, mesmo depois da realização do evento, a investigação sobre a legalidade, razoabilidade e priorização dos recursos permanece formalizada no Ministério Público. A instauração do Inquérito Civil apareceu no Diário Eletrônico do MPPR desta segunda-feira (31).
O novo capítulo surge justamente quando os números do TCE-PR colocam Campo Largo entre os maiores gastadores da Região Metropolitana com esse tipo de evento. Desde 2021, foram R$ 10,5 milhões, atrás apenas de São José dos Pinhais, Fazenda Rio Grande e Curitiba. Na comparação feita pelo Tribunal, as despesas de Campo Largo com shows correspondiam a 4,15% dos investimentos em saúde e a 3,80% dos gastos em educação considerados no levantamento.
A discussão, portanto, deixou de se limitar ao tamanho dos cachês. Nos documentos que embasam o inquérito, o próprio Ministério Público passou a questionar se, diante das carências registradas em serviços destinados justamente à população mais vulnerável, o palco deveria ocupar esse espaço entre as prioridades do orçamento de Campo Largo.
Matérias relacionadas
Moro nega uso político de eventos da Fiep em ação eleitoral no Paraná
Gazeta checa declarações de Sandro Alex, Requião Filho e Sergio Moro em sabatinas da Massa FM Cascavel
Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados em nova rodada de pesquisas para presidente
TRE-PR libera pesquisa Quaest após instituto apresentar comprovantes e esclarecer questionamentos
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.