Para não repetir roubalheira do passado, Agepar terá de aumentar fiscalizações
Fiscalização diz respeito aos anos de 2023 e 2024, mas ilustram situação que Paraná teve no passado
A Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar) terá de reforçar a fiscalização das concessões rodoviárias sob sua responsabilidade. A determinação vem após uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), que apontou falhas graves na atuação da agência. Entre os principais problemas identificados estão a morosidade nos processos fiscalizatórios, a falta de profissionais qualificados e a ausência de diretrizes claras para a regulação. Como consequência dessas deficiências, as concessões anteriores sofreram com obras não realizadas e serviços abaixo do esperado, o que gerou prejuízos significativos para a população e a infraestrutura do estado.
O Tribunal emitiu 34 recomendações para que a Agepar melhore sua atuação, com foco na fiscalização dos contratos e na garantia da execução das obras previstas. Esse reforço na fiscalização se faz necessário especialmente no setor rodoviário, onde o histórico de descumprimentos contratuais por parte das concessionárias evidencia a importância de um acompanhamento mais rigoroso por parte do órgão regulador.
Histórico
O Paraná enfrentou diversos problemas no modelo anterior de concessões rodoviárias, que vigorou por mais de duas décadas. As concessionárias contratadas deixaram de cumprir uma série de obras e melhorias previstas nos contratos, mesmo com a arrecadação de bilhões de reais em pedágios. Obras essenciais, como duplicações e construção de viadutos, foram adiadas ou simplesmente não saíram do papel, levando à insatisfação dos usuários e à necessidade de intervenção do poder público.
Durante a concessão anterior das rodovias do Paraná, um esquema de corrupção envolvendo concessionárias e agentes públicos desviou bilhões de reais, resultando na não execução de diversas obras previstas. As investigações da Operação Lava Jato revelaram que empresas do pedágio pagaram propinas a políticos e agentes públicos em troca de aditivos contratuais que reduziram investimentos e aumentaram tarifas. Os crimes incluíram fraude em licitações, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Como resultado, acordos de leniência foram firmados, com concessionárias se comprometendo a devolver parte dos valores desviados. O esquema prejudicou a infraestrutura do estado e onerou motoristas, evidenciando a necessidade de maior fiscalização nas novas concessões.
Com o fim das antigas concessões, o governo do estado estruturou um novo modelo, que teve início em 2023 e promete garantir maior eficiência e cumprimento das obrigações contratuais. No entanto, para que esse novo ciclo tenha êxito, é essencial que a Agepar exerça uma fiscalização rigorosa, impedindo que se repitam os erros do passado.
Deficiências
A auditoria realizada pelo TCE-PR na Agepar apontou falhas estruturais e operacionais que comprometem a eficiência da fiscalização das concessões rodoviárias. Segundo o Tribunal, a agência não segue normas internacionais de boas práticas, o que resulta em fiscalizações morosas e pouco efetivas.
Entre 2023 e 2024, a Agepar realizou 227 apurações de ofício, mas apenas 15 fiscalizações extraordinárias, evidenciando que sua atuação tem sido predominantemente reativa. Além disso, o tempo médio de tramitação de processos fiscalizatórios chegou a 12 meses, com casos extremos em que investigações duraram até 27 meses sem conclusão.
Outro fator crítico é a carência de pessoal qualificado na agência. A Coordenadoria de Fiscalização, responsável por monitorar os contratos, dispõe de um número reduzido de especialistas, o que prejudica a capacidade de acompanhamento e análise dos serviços prestados pelas concessionárias. Atualmente, estima-se que a Agepar precise de pelo menos mais 65 especialistas e 12 auxiliares para suprir suas necessidades de fiscalização de maneira adequada.
Além disso, a auditoria constatou que a Ouvidoria da Agepar não está estruturada de forma eficiente. O órgão não possui um ouvidor formalmente nomeado, instalações adequadas e um fluxo de atendimento bem definido, dificultando a participação dos usuários dos serviços na regulação e fiscalização das concessões.
Recomendações
Diante das impropriedades constatadas, o TCE-PR apresentou 34 medidas corretivas que visam aprimorar a fiscalização da Agepar. Entre as recomendações, destacam-se:
- Implementação de um sistema de priorização de fiscalizações, considerando o volume financeiro envolvido e os riscos da atividade;
- Redução dos prazos de tramitação dos processos fiscalizatórios;
- Contratação de mais especialistas em regulação para fortalecer a fiscalização;
- Maior integração entre a Agepar e os usuários dos serviços, permitindo uma participação mais ativa da sociedade no monitoramento das concessões;
- Estruturação adequada da Ouvidoria da Agepar, garantindo que as reclamações dos usuários sejam tratadas com eficiência e transparência;
- Realização de Análise de Impacto Regulatório (AIR) antes de impor novas obrigações às concessionárias, evitando custos excessivos e impactos negativos para o usuário final;
- Melhoria dos indicadores de qualidade dos serviços públicos concedidos, possibilitando um acompanhamento mais preciso e eficiente da performance das concessionárias.
Com a implementação do novo modelo de concessões rodoviárias, que prevê mais investimentos e obras essenciais para a infraestrutura do estado, a fiscalização desempenhará um papel determinante no cumprimento dos contratos. A Agepar terá a responsabilidade de assegurar que as concessionárias realizem as melhorias previstas e prestem serviços de qualidade aos usuários.
O fortalecimento da fiscalização pode evitar a repetição dos erros do passado, garantindo que os recursos arrecadados sejam efetivamente revertidos em benefícios para a população. A efetividade da Agepar será um dos pilares para o sucesso do novo modelo, e a adoção das recomendações do TCE-PR será fundamental para aprimorar sua atuação e garantir maior transparência e eficiência na regulação das concessões rodoviárias no Paraná.
Matérias relacionadas
Moro nega uso político de eventos da Fiep em ação eleitoral no Paraná
Gazeta checa declarações de Sandro Alex, Requião Filho e Sergio Moro em sabatinas da Massa FM Cascavel
Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados em nova rodada de pesquisas para presidente
TRE-PR libera pesquisa Quaest após instituto apresentar comprovantes e esclarecer questionamentos
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.