Pescadores relatam colapso da pesca após dragagem na Baía de Paranaguá
Depoimentos apontam queda drástica na pesca artesanal e impactos à sobrevivência de comunidades tradicionais do litoral paranaense
A rotina de centenas de pescadores artesanais da Baía de Paranaguá mudou drasticamente nos últimos meses. O que antes garantia alimento e renda para famílias de Paranaguá, Antonina, Guaraqueçaba e Pontal do Paraná passou a render redes vazias e jornadas cada vez mais longas no mar. É esse o cenário descrito em depoimentos reunidos pelo Ministério Público Federal (MPF) durante um inquérito civil ao qual a Gazeta do Paraná teve acesso.
Os relatos fazem parte da investigação que resultou em uma ação civil pública contra a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa) e a DTA Engenharia. O MPF pede à Justiça o bloqueio de bens das empresas e uma indenização mínima de R$ 21,4 milhões pelos supostos danos ambientais causados durante as obras de aprofundamento do canal de acesso ao Porto de Paranaguá.
Embora a ação trate de impactos ambientais em um dos mais importantes estuários do país, o inquérito evidencia que os prejuízos ultrapassam a degradação da baía e atingem diretamente quem depende da pesca artesanal para sobreviver.
Um dos pescadores ouvidos pelo MPF afirma que, onde antes havia fartura de peixes, hoje é preciso permanecer praticamente uma noite inteira no mar para capturar apenas um quilo de pescado. Outro relata que as dragas chegaram a operar a menos de um quilômetro das áreas tradicionais de pesca, revolvendo continuamente o fundo da baía e reduzindo a oferta de alimento para peixes, siris e camarões.
Segundo os depoimentos, a diminuição das espécies impacta diretamente a renda das famílias e ameaça uma atividade transmitida entre gerações. Comunidades tradicionais relatam que a escassez de pescado se intensificou com o avanço das obras de dragagem.
De acordo com o MPF, os problemas decorreram do uso irregular da técnica conhecida como overflow. O procedimento consiste no transbordamento da água misturada aos sedimentos retirados do fundo da baía após o enchimento dos tanques das dragas. Embora permitido em situações específicas, o órgão sustenta que a prática ocorreu além dos limites fixados na licença ambiental concedida pelo Ibama.
As investigações apontam 487 episódios de uso irregular da técnica ao longo de apenas dez meses. Para o Ministério Público, o descarte excessivo de sedimentos provocou grandes plumas de lama em suspensão, alterando a qualidade da água e afetando manguezais, bancos de lama e áreas fundamentais para alimentação, reprodução e desenvolvimento de diversas espécies aquáticas.
O inquérito também destaca que parte dos sedimentos teria sido descartada em locais não autorizados, agravando os impactos ambientais e comprometendo o equilíbrio de um dos maiores conjuntos de manguezais preservados do Brasil.
Outro ponto ressaltado pelo MPF é que esta não seria a primeira ocorrência envolvendo as mesmas empresas. Appa e DTA Engenharia já respondem a outra ação judicial relacionada ao uso excessivo do sistema de descarte de sedimentos durante dragagens realizadas em 2016.
Além da indenização de R$ 21,4 milhões, o Ministério Público pede que as empresas sejam obrigadas a recuperar integralmente as áreas degradadas. O valor, segundo a ação, poderá ser ampliado caso futuras perícias apontem danos ambientais e sociais ainda maiores.
Agora, caberá à Justiça Federal analisar os pedidos. Enquanto o processo segue em tramitação, pescadores aguardam uma resposta que, para eles, vai além da responsabilização das empresas: representa a esperança de recuperar uma atividade que sustenta comunidades inteiras no litoral do Paraná.
Matérias relacionadas
Moro nega uso político de eventos da Fiep em ação eleitoral no Paraná
Gazeta checa declarações de Sandro Alex, Requião Filho e Sergio Moro em sabatinas da Massa FM Cascavel
Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados em nova rodada de pesquisas para presidente
TRE-PR libera pesquisa Quaest após instituto apresentar comprovantes e esclarecer questionamentos
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.