Pix vira alvo de investigação dos Estados Unidos e Brasil corre risco de sanções
Governo Trump apura supostas vantagens do sistema do Banco Central sobre empresas de cartão americanas; decisão final deve sair até o fim de abril
O sistema de pagamentos instantâneos Pix passou a integrar uma disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, ampliando a tensão nas relações entre os dois países. Uma delegação brasileira esteve em Washington para reuniões com integrantes do governo de Donald Trump, em meio a uma investigação baseada na chamada Seção 301 da legislação comercial americana.
A apuração foi iniciada em julho do ano passado e envolve diferentes áreas, como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas irregulares, acesso ao mercado de etanol, proteção à propriedade intelectual e questões ambientais, incluindo desmatamento ilegal.
Pix no centro das críticas
Criado pelo Banco Central do Brasil e lançado em novembro de 2020, o Pix é um sistema de transferências e pagamentos instantâneos que funciona 24 horas por dia, permitindo operações em poucos segundos entre contas bancárias, fintechs e carteiras digitais. O modelo ganhou rápida adesão no país e se tornou um dos principais meios de pagamento utilizados pela população.
Dentro da investigação americana, o Pix passou a ser alvo de questionamentos por parte de empresas de cartão de crédito dos Estados Unidos. Essas companhias alegam que o Banco Central concede vantagens ao sistema, o que poderia prejudicar a concorrência no setor de pagamentos eletrônicos. O governo brasileiro rejeita essa interpretação.
Documentos do USTR indicam que as críticas têm base técnica e refletem uma insatisfação mais ampla com políticas adotadas pelo Brasil em diferentes setores econômicos.
Risco de sanções
A expectativa é de que o resultado da investigação seja divulgado até o fim de abril, antes do prazo tradicional de um ano. Caso a conclusão seja desfavorável, o Brasil poderá ser alvo de sanções comerciais, consideradas mais complexas e difíceis de reverter do que tarifas convencionais.
“Hoje, os incentivos na mesa estão todos apontando para uma decisão desfavorável para o Brasil”, afirmou Bruna Santos, diretora do Brazil Institute, que acompanha o processo.
Segundo a especialista, ainda existe margem para negociação, desde que o Brasil demonstre disposição para discutir concessões em pontos considerados sensíveis pelos Estados Unidos.
Negociação e resposta brasileira
Após a divulgação do resultado, os dois países devem retomar as negociações para avaliar possíveis ajustes. Paralelamente, o Brasil também responde a outro processo baseado na Seção 301, que investiga o suposto uso de trabalho análogo à escravidão em cadeias produtivas.
Em documento enviado às autoridades americanas, o governo brasileiro classificou eventuais sanções como “desproporcionais e injustas” e afirmou que medidas desse tipo podem comprometer avanços já obtidos no combate a práticas irregulares.
O texto é assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que também criticou o caráter unilateral da Seção 301. Segundo o documento, disputas comerciais deveriam ser tratadas no âmbito da Organização Mundial do Comércio.
O caso coloca o Pix no centro de um debate que ultrapassa o setor financeiro e passa a envolver interesses comerciais, tecnológicos e diplomáticos entre duas das maiores economias do mundo.
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