Relatório sigiloso aponta risco de demissões em massa e fragilização tecnológica com privatização da Celepar
Veja o documento interno do Projeto Nex que prevê corte de pessoal, avanço da terceirização e mudanças estruturais que podem afetar serviços digitais estratégicos do Paraná
O conteúdo do relatório sigiloso do Projeto Nex escancara que a privatização da Celepar está sendo estruturada como um processo de reconfiguração profunda da empresa, com efeitos diretos sobre empregos, operação tecnológica e controle estatal. O documento não trata apenas da venda da companhia, mas de um plano de transformação que inclui redução de pessoal, ampliação da terceirização e mudanças na estrutura que sustenta serviços públicos essenciais no Paraná.
A espinha dorsal do projeto está na chamada “otimização de headcount”, repetida ao longo do relatório como diretriz técnica. Na prática, isso significa enxugamento do quadro funcional e substituição de trabalhadores por novos arranjos operacionais. Embora o documento não explicite um número fechado, o próprio desenho apresentado (com ajustes em múltiplas diretorias) sustenta a estimativa de que mais de 900 empregos possam ser impactados. Trata-se de uma mudança estrutural, não de um ajuste pontual.
Esse movimento ocorre mesmo diante de um alerta interno relevante. O relatório reconhece que a Celepar depende de um grupo de profissionais altamente especializados, responsáveis por manter a operação de sistemas críticos. A eventual perda desses quadros pode comprometer a continuidade dos serviços, o que evidencia um risco concreto de ruptura operacional. Ou seja, o próprio diagnóstico que embasa o projeto admite que o corte pode atingir justamente o núcleo técnico que sustenta a empresa.
A reestruturação não se limita ao quadro de pessoal. Um dos eixos centrais do Projeto Nex é a ampliação da terceirização, apresentada como solução para aumentar a eficiência. A Celepar, segundo o relatório, opera com menor nível de terceirização do que empresas privadas, e por isso deveria expandir esse modelo. Na prática, isso significa transferir atividades hoje internas para empresas contratadas, incluindo áreas operacionais e funções ligadas à infraestrutura tecnológica.
Esse ponto altera a lógica de funcionamento da companhia. A Celepar, que hoje concentra conhecimento e execução dentro do próprio corpo técnico, passaria a depender de contratos externos para manter sua operação. Em um ambiente de tecnologia pública, isso implica deslocar o controle sobre sistemas e processos para terceiros, com impactos diretos sobre segurança da informação, continuidade de serviços e governança de dados.
O risco se amplia quando o relatório trata da arquitetura tecnológica. A empresa opera com sistemas próprios e plataformas integradas ao governo estadual, e o processo de privatização prevê substituições, eliminações e migrações desses sistemas. A implementação de um novo ERP é tratada como etapa crítica, o que revela a dimensão da transformação em curso. Esse tipo de transição, em estruturas complexas, costuma envolver riscos elevados de falhas e instabilidade.
Além disso, o documento reconhece que parte dos ativos da Celepar (como redes e domínios) tem caráter estratégico para o funcionamento do Estado. A necessidade de transferir ou reconfigurar esses ativos levanta um debate mais amplo sobre soberania digital, já que envolve o controle de infraestrutura essencial para a gestão pública. Não se trata apenas de ativos físicos ou contratos, mas da espinha dorsal tecnológica do governo.
Outro efeito relevante aparece nas estruturas vinculadas à empresa. Entidades como Funcel e PreviCel dependem diretamente da Celepar, e o relatório admite que a ruptura desses vínculos pode inviabilizar sua continuidade. No caso do fundo previdenciário, há inclusive a possibilidade de encerramento ou privatização. O impacto, portanto, não se restringe à empresa, mas alcança todo o ecossistema construído ao seu redor.
É nesse cenário que aparece, em segundo plano, mas com papel decisivo, a atuação da EY-Parthenon. A consultoria não se limita a avaliar a empresa. Ela estrutura o diagnóstico, consolida dados internos, conduz entrevistas com executivos e, principalmente, propõe o modelo de funcionamento pós-privatização. O relatório deixa claro que as recomendações foram construídas a partir de diretrizes contratuais e em alinhamento com a própria Celepar.
Na prática, isso coloca a EY como agente central no desenho da desestatização. É a partir de sua análise que se definem cortes, terceirizações, reorganização de processos e até o cronograma da transição. O documento apresenta, inclusive, um roadmap detalhado entre 2025 e 2026, com etapas que incluem mudanças estruturais, revisão de contratos e implementação de novos sistemas.
Esse protagonismo se conecta a outro ponto que já vinha sendo discutido em análises anteriores: o volume e o formato dos contratos da consultoria com estruturas do Estado. No caso da Celepar, o relatório é resultado direto de um contrato específico firmado para conduzir a diligência operacional, o que reforça a presença da EY como formuladora das diretrizes do processo, e não apenas como prestadora de apoio técnico.
O que emerge desse conjunto de informações é um cenário em que a privatização deixa de ser apenas uma decisão administrativa e passa a ser um projeto conduzido sob lógica de mercado, com forte influência de uma consultoria privada. O Projeto Nex, nesse sentido, não apenas prepara a venda da Celepar, mas redefine o papel da empresa e, por consequência, a forma como o Estado do Paraná estrutura sua própria capacidade tecnológica.
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