Vereadora é obrigada a retirar camiseta feminista em sessão da Câmara de Curitiba
Vereadora é orientada a trocar vestimenta com mensagem “lute como uma garota” após questionamento em plenário
A sessão desta terça-feira (7) da Câmara Municipal de Curitiba foi marcada por um episódio que rapidamente deslocou o debate legislativo para um campo simbólico e político. A vereadora Professora Ângela foi orientada a retirar uma camiseta com a frase “lute como uma garota” após questionamento formal do vereador Guilherme Kilter, que invocou o regimento interno da Casa.
A intervenção ocorreu durante discussão de projetos em plenário. Em questão de ordem, Kilter argumentou que a vestimenta violava norma expressa da Câmara. “É vedado o uso de qualquer tipo de vestimenta que contenha símbolo, estampa ou imagem que caracterize propaganda político-partidária, ideológica ou promocional”, afirmou, citando o Ato da Mesa nº 5. Em seguida, pediu a suspensão da fala da vereadora até a regularização da situação.
A presidência da sessão, exercida pelo vereador Noriceto, acolheu o pedido e determinou o cumprimento da regra. “Pedimos que a professora Ângela faça a substituição da vestimenta para cumprir o que foi determinado”, disse, reforçando que a norma permite esse tipo de manifestação apenas durante uso da tribuna em contextos específicos, como homenagens.
A vereadora acatou a orientação, mas reagiu ao episódio. “O vereador claramente tem problema com a luta das mulheres”, afirmou, antes de deixar momentaneamente o plenário para trocar a camiseta.
Reação imediata
A decisão gerou reação em cadeia entre parlamentares da oposição, que passaram a enquadrar o episódio como expressão de constrangimento político e simbólico dentro da Casa.
A vereadora Camilla Gonda classificou a situação como “inadmissível”. “A nossa companheira é obrigada a se retirar da Câmara porque um vereador não suporta que ela esteja com a camiseta escrito ‘lute como uma garota’”, afirmou.
Na mesma linha, a vereadora Laís Leão ampliou o tom crítico e vinculou o episódio à dinâmica do debate político. “A gente está aqui defendendo o óbvio e tendo que lidar com esse tipo de situação”, disse, ao elogiar a atuação de colegas durante a sessão.
Já a vereadora Vanda de Assis questionou a interpretação da regra. “Camiseta é camiseta, camiseta não é feminista. Feministas somos nós, mulheres feministas”, declarou.
Defesa do regimento
Do outro lado, o vereador Guilherme Kilter sustentou que a medida foi estritamente técnica e isonômica. “Se eu não posso vir com camiseta de ‘Deus, pátria e família’, a vereadora também não pode vir com camiseta feminista”, afirmou, ao defender a aplicação uniforme da norma.
A presidência da sessão também reforçou esse entendimento ao final dos trabalhos, após a escalada do debate. Segundo Noriceto, não houve motivação política na decisão. “Não houve qualquer tipo de abuso de autoridade, coação ou violência política de gênero. A orientação foi administrativa, baseada nas normas vigentes”, declarou.
Retorno ao plenário
Após trocar a vestimenta, a vereadora Professora Ângela retomou a participação na sessão e voltou a criticar o episódio. “Fico impressionada com a capacidade de alguns vereadores de se incomodar mais com isso do que com o que está sendo discutido aqui”, afirmou.
Ela também ampliou a crítica para o funcionamento da Casa. “Nossas falas são interrompidas, nossos projetos ficam parados e somos desrespeitadas todos os dias nesse lugar”, disse.
Debate que ultrapassa o regimento
O episódio, embora motivado por uma regra interna, acabou evidenciando um conflito mais amplo dentro da Câmara. De um lado, vereadores defendem a aplicação estrita do regimento como forma de preservar a formalidade institucional. De outro, parlamentares apontam seletividade e denunciam o que classificam como restrições à expressão política e simbólica, especialmente em pautas relacionadas a gênero.
A discussão ocorreu paralelamente a um debate mais amplo sobre um projeto de lei que tratava de restrições a nomeações no serviço público, o que contribuiu para elevar o tom político da sessão.
Ao final, o episódio da camiseta acabou se consolidando como um dos momentos mais marcantes do dia, sintetizando o ambiente de polarização que tem marcado os debates no Legislativo municipal.
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