Entre histórias e memórias: Acir Dias fala sobre literatura e criação no Mais+
“A literatura, o texto, a palavra retornando pro lugar que ela saiu”: em entrevista ao Mais+, escritor cascavelense conta como vivências em São Paulo deram origem a Casa Nazaré e revela os caminhos por trás da obra
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Algumas histórias começam muito antes de chegar às páginas de um livro. Para o escritor cascavelense Acir Dias, o novo romance Casa Nazaré nasceu de anos de observação, pesquisa e contato com pessoas em situação de rua no centro de São Paulo e na região da Cracolândia. O processo, que envolveu entrevistas e vivências em espaços de acolhimento, foi tema da conversa com Valéria Mendes no Mais+, podcast de cultura e variedades da Gazeta do Paraná.
Acir conta que passou cerca de dois anos e meio acompanhando aquela realidade, entrevistando pessoas e participando de ações de acolhimento. A experiência trouxe histórias que ultrapassaram a pesquisa e passaram a fazer parte da construção literária. “O escritor romancista nada mais é do que um observador da vida social, afetiva”, explica.
Da realidade a ficção
É desse encontro entre observação e imaginação que surge Casa Nazaré. O romance acompanha Carolina, personagem que atravessa décadas pelas ruas do centro de São Paulo e encontra acolhimento na Casa Nazaré, inspirada em um edifício real localizado na região da Praça da Sé.
A personagem percorre diferentes períodos da história da cidade, em uma narrativa que passa por 1950, 2000 e chega a 2023. Ao longo dos capítulos, Carolina encontra outras pessoas e carrega conflitos ligados à memória, espiritualidade e identidade. Uma cicatriz nas costas também se transforma em um dos elementos que costuram a narrativa.
Embora seja uma personagem ficcional, Carolina foi construída a partir de muitas das histórias encontradas pelo escritor durante a pesquisa. Para Acir, a ficção não apaga a realidade que a inspirou, mas transforma experiências e relatos em uma nova forma de narrativa.
Histórias invisíveis
Durante o período em São Paulo, o escritor também reuniu cerca de 40 horas de gravações. Desse material, 15 relatos foram transformados em Escritas dos Invisíveis, obra com uma abordagem mais próxima do jornalismo e formada por mini biografias.
Entre as histórias está a de um homem que viveu nas ruas antes de se tornar padre e, posteriormente, passou a atuar no atendimento à população vulnerável durante a pandemia. Outra trajetória é a de Ítalo, que passou pelo circo e pela televisão antes de chegar à Cracolândia.
As vivências também expuseram ao escritor situações de extrema vulnerabilidade. Entre elas, os obstáculos encontrados durante tentativas de acolhimento de mulheres na Cracolândia, que, segundo o relato de Acir, estavam inseridas em redes de exploração e dependência financeira. A experiência, afirma, teve impacto não apenas em sua escrita, mas na maneira como passou a enxergar aquelas pessoas. “Eu perdi um encanto pelo mundo. Eu vi um encanto só nos olhos daquelas pessoas”, relata o escritor ao lembrar do período.
O tempo de escrever
A trajetória de Acir também passa pela vida acadêmica, pelo teatro, pelo cinema e pela pesquisa. Depois de anos adiando o desejo de escrever literatura, ele retomou esse projeto durante a pandemia e passou a dedicar mais espaço à criação artística.
Para o escritor, porém, inspiração não basta. A produção de um livro exige disciplina, observação e tempo. Durante a escrita de Casa Nazaré, ele estabeleceu uma rotina diária e chegou a passar cerca de uma hora e meia escrevendo sem interrupções.
A própria experiência com o bloqueio criativo também fez parte de sua trajetória. Durante o mestrado, Acir conta que passou cerca de dois anos enfrentando dificuldades para produzir, especialmente por se comparar ao trabalho de Franz Kafka. Para ele, o período de silêncio não significou necessariamente ausência de criação: enquanto não escrevia, estava observando, lendo e acumulando repertório.
Herança de histórias
A relação de Acir com a literatura começou ainda na infância, mas não necessariamente pelos livros. Seu pai, que tinha pouca relação com a escrita, era um contador de histórias. Foi ouvindo essas narrativas que o escritor descobriu o prazer de contar e, posteriormente, encontrou na literatura sua própria maneira de fazer isso.
A memória do pai ganhou ainda mais significado recentemente, após sua morte. Acir lembra que, pouco antes de falecer, ele comentava com orgulho sobre o filho estar lançando novos livros. Para o escritor, sua produção literária também é uma forma de homenagear as pessoas e personagens que atravessaram sua vida.
É justamente nessa relação entre quem conta, quem escuta e quem transforma a história que Acir encontra parte do sentido de sua literatura. Ao reencontrar pessoas que haviam compartilhado seus relatos para Escritas dos Invisíveis, ele percebeu que aquelas histórias estavam retornando aos próprios personagens. “A literatura, o texto, a palavra retornando pro lugar que ela saiu”, define.
Novo livro
Casa Nazaré foi lançado na quinta-feira, dia 24, na Biblioteca da Unioeste. A obra foi comercializada durante o evento, e a renda obtida com as vendas será destinada à Pastoral de Rua de São Paulo. O lançamento também reuniu outros escritores e obras.
Ao encerrar a entrevista, Acir deixou um convite que ultrapassa o próprio lançamento: ler. Para o escritor, a leitura é uma forma de despertar a imaginação, construir mundos e encontrar novas possibilidades de enxergar a realidade.
As histórias que deram origem a Casa Nazaré nasceram das ruas, das conversas e das experiências vividas pelo autor. Agora, transformadas em literatura, ganham novas páginas.
Acesse a íntegra no Youtube de Gcast
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