Plano Safra 2026/27 começa com menor volume de crédito das últimas cinco temporadas
Financiamentos recuam 26,4% no início do ciclo, área financiada cai para 5,07 milhões de hectares e carteira problemática chega a 23,5%
🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA
O Plano Safra 2026/2027 começou com forte retração na concessão de crédito rural e registra o pior desempenho das últimas cinco temporadas. Dados do Banco Central analisados pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) mostram que produtores contrataram R$ 52,4 bilhões em financiamentos nos meses de julho e agosto, o equivalente a apenas 12,6% dos R$ 416,3 bilhões anunciados para o ciclo.
O percentual é o menor registrado desde a safra 2022/2023, considerando o mesmo período de cada temporada e sem incluir as Cédulas de Produto Rural (CPRs), que não são divulgadas pelo sistema do Banco Central.
Na comparação com julho e agosto da safra 2025/2026, quando foram contratados R$ 71,2 bilhões, a queda chega a 26,43%. O recuo ocorre justamente no início do ciclo agrícola, período em que os produtores tradicionalmente recorrem ao crédito para financiar o plantio e a produção.
Do total contratado nos dois primeiros meses da safra atual, R$ 15,69 bilhões foram destinados ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 12,45 bilhões ao Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 24,27 bilhões aos demais produtores.
Área financiada despenca
Além da redução no volume de dinheiro disponibilizado, também caiu de forma significativa a área financiada pelo crédito rural.
A safra 2023/2024 registrou o maior volume do período analisado, com 14,2 milhões de hectares financiados. No início da temporada 2026/2027, porém, a área alcançou apenas 5,07 milhões de hectares.
O número de contratos também recuou. Foram 375,1 mil operações em julho e agosto deste ciclo, contra 457,8 mil no mesmo período da safra anterior.
Os dados indicam ainda aumento do valor médio dos contratos. Entre agricultores familiares, o ticket médio chegou a R$ 49 mil, alta de 49,1%. Entre médios produtores, a média alcançou R$ 359 mil, crescimento de 18,7%. Para os demais produtores, o valor médio ficou em R$ 1,4 milhão, aumento de 9,5%.
Endividamento pressiona produtores
A retração do crédito ocorre paralelamente ao avanço da chamada carteira problemática, que reúne operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas.
Segundo a análise da FPA, o indicador, que permanecia entre 4% e 5% nas primeiras temporadas analisadas, chegou a 23,5% em julho de 2026.
O aumento do endividamento dificulta o acesso a novos financiamentos, já que instituições financeiras passam a adotar critérios mais rígidos para a concessão de crédito. Produtores com operações problemáticas também enfrentam maiores dificuldades para contratar novos recursos.
A situação se soma às dificuldades na renegociação das dívidas rurais previstas na Medida Provisória 1.376/2026.
A vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS), classificou o cenário como uma “tempestade perfeita” para o setor. Entre os fatores citados estão os juros elevados, dificuldades para aquisição de insumos, inadimplência e aumento dos pedidos de recuperação judicial.
Renegociação ainda avança lentamente
Outro ponto de preocupação é o ritmo das renegociações das dívidas. Segundo informações divulgadas pela imprensa especializada e citadas pela FPA, até a semana passada haviam sido renegociados R$ 3,6 bilhões.
A expectativa inicial do Ministério da Fazenda era alcançar aproximadamente R$ 100 bilhões em renegociações. A diferença entre o valor esperado e o montante efetivamente renegociado aumenta a pressão sobre produtores que dependem da medida para reorganizar as dívidas e voltar a acessar linhas de financiamento.
Entre as dificuldades relatadas estão exigências para a renegociação, como o pagamento antecipado de 15% do valor da dívida.
Com o crédito rural em queda, a área financiada reduzida e a carteira problemática em alta, o início do Plano Safra 2026/2027 coloca o acesso aos recursos para custeio e investimento entre os principais desafios enfrentados pelo setor agropecuário.
Foto: Divulgação
Matérias relacionadas
Frango e suíno ampliam exportações, mas mercado interno impõe desafios diferentes ao Paraná
Universidades ajudam a colocar Paraná na liderança nacional da produção orgânica
Prévia do PIB confirma retração do agro enquanto setor enfrenta entraves na renegociação de dívidas
Agricultura ganha 11 milhões de hectares em 41 anos na Mata Atlântica
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.